terça-feira, 29 de novembro de 2011

Doce Veneno


Traçou planos, almejou metas,

Definiu pacientemente seus caminhos.
Desprezou o engano em suas rotas,
E viu-se ilhado por tantas variáveis,
Que enxotavam-lhe de sua segurança.

Postava-se diante de algumas escolhas,
E ao ponderar sobre a sanidade,
Lembrava-se que da insanidade
Conquistou muito do que mais se orgulhava.
Trocava rascunhos por sorrisos.

E não há construção que chegue aos pés
Da melhor expressão da face dela.
Ou planejamento que se compare
Aos risos recuperados por ela
Na improvável bolsa de ações do humor.

Presenciava uma nova transformação,
Da qual preocupava-se em não preocupar.
Afinal, tanta leveza era fruto de um olhar.
Ou de tanto tato, convertido em calor.
Sentia de fato, uma picada sem dor.

sábado, 22 de outubro de 2011

Incondicionalmente


Tateando no escuro de um cômodo estranho,

Sentia medo, insegurança e também excitação.
Tudo poderia acontecer, e cabia a si
Tirar o melhor proveito da situação,
Ou tornar-se vítima de suas próprias ousadias.

Diversas melodias povoavam sua cabeça.
Revirava o baú atrás de lembranças
Que lhe ajudassem a contornar novos desafios.
Sentia a segurança nostálgica roubar o presente,
Enquanto idealizava seu futuro.

Questionava sua capacidade resposta aos novos desafios.
Questionava se abriria mão de seus desejos,
Em busca de realizações concretas.
Questionava...Debatia-se...Questionava...
Sentia-se, incondicionalmente, humano.


sábado, 9 de abril de 2011

Super-Homem


Sustentando blocos com força de camundongo,

Vive seus tempos de super-homem,
Sabendo tratar-se de um projeto de homem.
Mascarando a verdade em um sorriso,
Protege sua comunidade,
Enfrenta o mundo malfeitor.

Em seu interior, as coisas soam como Lex Luthor.
Há bagunça, insegurança e caos.
Um retrato de Laos coberto em embalagem justiceira.
Carente por proteção certeira,
A mesma que há tempos fornece
Incansavelmente e sem parar.

Sem palavras para falar de si,
Palestra ao falar da vida alheia,
Mostrando força incondicional.
Voando apenas em sua mente,
Com sua falsa coragem permanente,
Este super-homem dispensa criptonita.

sábado, 19 de março de 2011

O hype venceu.


Durante as últimas semanas, muito se falou no meio musical, sobre o lançamento simultâneo do quarto disco do The Strokes (“Angles”) e do disco debut do grupo “The Vaccines (“What Did You Expect From the Vaccines?”), provavelmente a banda de maior hype do mundo indie de 2010. Cabe uma observação sobre o The Vaccines – suas músicas tiveram grande circulação no Reino Unido e na Internet antes do disco ser lançado, gerando grande expectativa e tornando essa “disputa” menos desigual, já que The Strokes, dispensa apresentações, afinal, já receberam a alcunha (detestável na minha opinião) de “salvadores do rock” desde 2001.


Confesso que tinha grande expectativa sobre o disco do Strokes. Está certo que seus últimos dois álbuns não eram tão bons quanto seu impecável primeiro disco, mas ainda continham grandes hits, e ao menos meia dúzia de boas canções. Já sobre disco do The Vaccines, eu tinha um certo receio, já que geralmente acabo afastado pelo hype excessivo. Assim me decepcionei com bandas como Vampire Weekend, The Gossip ou CSS, que passaram por este processo. O Arctic Monkeys eu gostei, mas após algum tempo de audição. Provavelmente eu acabaria decepcionado pelos elogios excessivos ao Vaccines. Provavelmente.

Eu gostei do disco da banda. Vale a ressalva de que ele não é salvação do rock, nem o melhor disco do ano, nem 95% do que você vai ler por aí sobre ele. Mas é o essencial: um bom disco de rock, com uma sonoridade crua, e com músicas que vêem fácil ao seu ouvido. Tudo aquilo que havia de sobra e até com mais qualidade em “Is This It”, o primeiro álbum do Strokes (na época, o maior dos hypes, até se consolidar uma grande banda), e hoje falta no novo disco do grupo: os nova-iorquinos lançaram um disco morno, muitas vezes monótono. A principal carência está na boa e velha intensidade dos vocais de Julian Casablancas. Mas o disco não está todo perdido. E por mais contraditório que seja, as exceções ficam por conta de duas ou três faixas que exalam a capacidade da banda de produzir sonoridades diferentes, como "Machu Picchu" ou "Call Me Back". A maturidade também chega. O desafio é combater o hype e vencê-lo. Dessa vez, o hype venceu minha resistência. E que vença a boa música.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Republish – Parte I

Esta é uma nova sessão criada por este blog, destinada à republicação de textos ou trechos de textos de seu arquivo remoto, sendo a maioria deles do primeiro blog do pensamentos circulares. O objetivo?

a) pura nostalgia;
b) a atual falta de criatividade deste blogueiro;
c) ambas opções acima;
d) para quê pensar nisso, não é mesmo?

Abaixo, o primeiro texto da série:


SUPLÍCIO ÍNTIMO

Pensamentos se agigantam.
Complicam, desnorteiam.
As pálpebras cedem
A um suspirar silencioso,
Seguido pelo suplício íntimo.
E o olhar no horizonte.
Lá, onde talvez se encontre
A paz simbólica de meus anseios.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Contradição Andante


Não reconhecia mais a si mesmo há algum tempo. Embora soubesse que os seres humanos fossem metamorfoses baseadas em suas próprias experiências, nunca antes havia chegado a um ponto em que considerasse estranha sua própria convivência. Talvez a estranheza fosse constatação que ninguém gosta de atingir: não era aquilo que havia moldado para si.


Procurando um sentido para convivência com o ser “estranho” a qual teria de se habituar, refez seu próprio molde por várias vezes, até que sua massa perdesse qualquer tipo de solidez. Assim, resolveu celebrar a situação com um largo copo de “foda-se”, ou talvez sua conjugação em primeira pessoa. Inverteu a lógica da idade, fez deboche de sua própria ética, mas não se desvinculou do bom senso. Era, definitivamente, algo indefinível.


sábado, 22 de janeiro de 2011

Zemeckis


De tanto olhar ao passado, perdia a noção de seu estado presente. Residente em um ambiente próprio, formado por um misto de lembranças, imaginações e dúvidas, virava freguês do tempo na batalha dos dias.


Combatia, alcançava vitórias e reconhecia algumas superações. Todavia, sentia uma inefável sensação: a de que deixara algo incompleto, em uma diferente dimensão de tempo-espaço. E como um caminhão, atropelava seus próprios sentidos com atividades frenéticas, a não dar espaço para tempo. Mas se ocasionalmente sobrasse tempo para viver a realidade de seu próprio espaço, vitimado seria por seus atos.


sábado, 8 de janeiro de 2011

Apetite


Não sei quando começou,

Ou mesmo quando cessará.
Há um grande apetite,
Fome de quem caça fartura,
Ainda que em satisfação.

Sem esquecer a escassez,
Andava em frente,
Sempre olhando para trás.
Em busca de algo mais,
Não se permitia trapacear.

Nunca quis tanto desvencilhar de si mesmo.
Não conseguia enganar-se,
Transformando-se no que não era.
E o que era orgulho, fez-se dissabor.
È o que acontece quando se come amor.